PROPOSTA PARA PAMPLONA X PAULISTA

2007
São Paulo (SP)

“Disse:
‘É tudo inútil, se o último porto só pode ser a cidade infernal, que está no fundo e que nos suga num vórtice cada vez mais estreito.’
E Polo:
‘O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar perceber quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço’”.

Ítalo Calvino, As cidades invisíveis

Não devemos construir nada nestes vazios, mas saber preservá-los.

Em uma cidade como a nossa densamente ocupada, que oculta os vestígios de sua topografia original e não oferece perspectivas visuais, nem espaços livres, os arquitetos deveriam de forma consciente “construir vazios” e não ocupá-los. “Construir vazios” é uma ação conceitual: como fazer um projeto que revele, que exponha, que evidencie novas possibilidades espaciais e crie novas atmosferas para o viver. Esse “construir vazio” é abrir clareiras, mas construindo!

Quase que invariavelmente a ocupação dos vazios subtrai definitivamente estes espaços da cidade. Acho que deveríamos ir noutra direção, de manutenção e construção de um novo significado para estes espaços. Neste sentido a arquitetura pode ser um acento, uma pontuação diferenciada que destaca sua existência e recupera sua dimensão.

Pensar em programas públicos ou coletivos para estes lugares é fundamental.

Pensemos num exemplo como uma especulação.

O vazio da Paulista com a Pamplona nos encanta por sua inserção naquela linha que é  a avenida, totalmente construída mas marcada por vazios significativos como este e o da Gabriel Monteiro da Silva. Alguns vazios construídos merecem destaque: o vão livre do MASP, as ruas do Conjunto Nacional, a esplanada das torres da Caixa Econômica Federal, o novo pilotis da FIESP e o jardim do Edifício Paulicéia.

Imaginamos que seria interessante somar a estes vazios o da rua Pamplona marcado por um uso inédito e de interesse coletivo: um grande restaurante popular, uma verdadeira “praça de alimentação”.

Uma laje no nível da Avenida Paulista se estende até o alinhamento oposto da rua São carlos  do Pinhal que está 5 metros abaixo do nível da avenida. Esta laje é uma ampliação do passeio da avenida e estaria pontuada por aberturas que admitem as arvores existentes e sugerem uma nova arborização mais densa que permita o sombreamento deste novo piso. As pessoas caminhariam e permaneceriam na altura da copa das arvores ou muito próxima a elas. Um espaço de estar, um remanso no fluxo cotidiano da avenida.

Sob a laje de aproximadamente 7000 m2 um espaço aberto para mesas: um enorme restaurante popular servido por um edifício cozinha/escola junto a rua Pamplona.  Este espaço, como extensão do passeio da São Carlos do Pinhal seria  um espaço dotado de apoios, pequenos comércios, que garantissem seu caráter de estar urbano.

Marcando esta nova paisagem, mas com apenas 8 pavimentos, o edifício de 75 x15 metros é uma caixa de cristal, totalmente transparente para a cidade, permitindo que se possam visualizar todas as suas atividades: as pessoas cozinhando, preparando, tendo aulas, etc…Sua presença, tanto de dia como de noite, anima o novo recinto, um espaço de viver na cidade.

ARQUITETURA

Alvaro Puntoni, João Sodré, Jonathan Davies

COLABORADOR

Rafael Murolo
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