2007
Brasília-DF
“Chegou o momento, digo mal – o último momento, diria melhor – de ainda ser possível avivar esse confronto e de assim preservar, para sempre a feição original de Brasília como cidade-parque, a facies diferenciadora da capital em relação às demais cidades brasileiras.“
Lucio Costa
Um desafio arquitetônico: Resolver dois programas em um único edifício.
A intenção precípua do partido é concentrar em uma única construção as duas estruturas solicitadas – a sede da CAPES e garagem com 800 vagas de estacionamento – reduzindo ao mínimo as ações construtivas e, consequentemente, os custos. Para a garagem, as vagas são acomodadas em um único circuito, horizontal e vertical, dispensando o artifício de rampas isoladas. A continuidade espacial firma-se como um valor ao diminuir o sentido de confinamento da edificação enterrada. As atividades da CAPES concentram-se na parte que aflora da edificação, uma estrutura em aço que paira sobre o conjunto.
Um desafio urbanístico: A extensão da noção de facies.
Uma estrutura aérea e outra subterrânea permitem a construção de um vazio horizontal que corresponde ao espaço da passagem, a construção de uma superfície de convergência que amplia o chão da cidade. No plano tipológico, a proposta confirma a inteligência das condições de natureza urbanística preexistentes. Mantém a silhueta estabelecida no entorno. Faz referência clara à paisagem e emancipa-se ao tratar a reconstrução das divisas, com praça rebaixada, pontes e vazios orientando a solução da implantação.
Entre o recolhimento e o encontro: A construção do vazio.
Desenvolvido em planta, o vazio adquire grande presença no interior do conjunto, na forma de pátio por onde desce a luz do céu e localizam as atividades mais públicas. Ao redor desta praça interna, no térreo inferior encontra-se o espaço da “Consultoria”, enquanto no térreo estão o refeitório e foyer, como varandas abertas à cidade. No centro, ergue-se o volume que abriga auditório e cafeteria – uma pedra cuidadosamente construída –, com jardim aquático na cobertura, para contemplação ou para uma reunião ao ar livre.
A topografia e o sentido espacial: O térreo multiplicado.
O partido optou por abrir um nível construído abaixo do nível da soleira, integrando-o verticalmente ao rés do chão, como térreos multiplicados, iluminados e ventilados pelo espaço livre que os circunscrevem, o que lhes concede expressão arquitetônica. O chão do edifício é construído, portanto, distinto do terreno natural que o circunda, destinado às áreas permeáveis verdes e às vagas mínimas solicitadas.
Compromisso com a utilidade: Flexibilidade total para os escritórios.
É natural que a estrutura organizacional da CAPES caracterize-se por um dinamismo que exige espaços capazes de abrigar novas funções e atividades em virtude de possíveis alterações no organograma da instituição. O projeto prevê facilidades para alterações constantes de arranjos, tanto para os espaços, quanto para os componentes de instalações prediais e de infra-estrutura – piso elevado, forro, e ausência de pilares no meio dos pavimentos. A área disponível para os escritórios é, realmente, livre.
A singularidade das coisas evidentes: O espelho d’água, o muxarabi e a “nuvem”.
O projeto leva em consideração questões relacionadas à sustentabilidade, explorando os consensos acumulados das soluções de bom êxito com freqüência, pensando no menor impacto ambiental possível e incorporando novas tecnologias para maior eficiência e economia. Os planos d’água contribuem para amenizar a dureza do clima do cerrado e buscam, por meio de desenho mais livre, complementar a racionalidade da construção. As faces de vidro dos escritórios possuem proteção de quebra-sol de aço patinável – espécie de renda a velar parte da luz incidente, sem o sacrifício da transparência. E por último, paira sobre o conjunto uma estrutura diáfana, em aço e chapa perfurada flutuando acima do conjunto como uma “nuvem” a sombrear-lhe o interior.
Superfície e profundidade: O pormenor como via de acesso à arquitetura.
O mote do quebra-sol é o símbolo da Capes, uma figura. A figuração é um tipo de estilização da realidade, uma forma de arte. A estratégia é trabalhar dentro das fronteiras entre o abstrato e o figurativo para obter um novo elemento arquitetônico. Eis que o símbolo se desfigura para converter-se em textura, abandonando sua natureza representativa. A idéia é estabelecer uma continuidade entre as duas formas de operar, alcançando ambivalência entre a linguagem abstrata e figurativa como distinção. A repetição também é técnica compositiva. Ao final, devem prevalecer idéias arquitetônicas simples – das linhas de sombra que vibram dentro da forma geral e produzem uma sensação global de abstração.
A solução: Continuidade e transformação.
Diante da complexidade do mundo contemporâneo, a essência da arquitetura tem sido procurada, muitas vezes, entre os excessos da sua quase negação ou desmedida afirmação. A proposta arquitetônica apresentada se expressa através de uma atitude de comedimento e síntese material. É conservadora, sem qualquer complexo, do saber fazer arquitetônico brasileiro, mas não se contenta com soluções universais, tampouco com invenções puramente subjetivas. É objetiva, mas deixa aberto o caminho para a imaginação.

planta nível 1029.285

planta nível 1032.085

planta nível 1034.885

planta nível 1037.685

planta nível 1041.885

planta nível 1045.385

planta nível 1048.885 - 1055.885

planta da cobertura / nível 1058.085

corte longitudinal

corte transversal

corte transversal